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Os familiares mais próximos estão entre as maiores influências na hora da escolha da carreira, segundo pesquisa do LinkedIn. A sugestão de especialistas é não impor vontades aos descendentes, mas apoiá-los e ajudá-los no processo de decisão

De acordo com uma pesquisa do LinkedIn, rede social de negócios, os pais ainda estão entre as maiores influências na vida de uma pessoa na hora de escolher a carreira. Cerca de 26% dos respondentes confirmaram o peso da família sobre essa decisão. Quem nunca viu algum pai ou mãe projetando uma profissão para o filho ou recomendando determinada área? Essas sugestões têm significância para os jovens, mas nem sempre são positivas. Isso porque, em geral, esses familiares querem ver os descendentes em setores tradicionais e consolidados do mercado, ou que eles sigam os passos deles. A busca por referência nos familiares se explica por duas razões, de acordo com Ana Claudia Plihal, diretora de Soluções de Talentos do LinkedIn Brasil.  

LinkendIn/ Divulgação
Ana Claudia Plihal, porta-voz do LinkedIn

 “Se você considera o nosso histórico-econômico, quando se fala de escolha profissional, a vontade de correr riscos é pequena. A pessoa tende a olhar para o que já viu e acaba que a referência mais próxima são os pais”, diz. “A outra questão é como expomos nossos jovens ao mercado de trabalho. Há pouca experimentação. Um adolescente que quer ser médico não fica convivendo num ambiente hospitalar”, afirma.  De acordo o psicólogo Luiz Ricardo Gonzaga, doutor em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), se a influência paterna será ou não positiva depende do tipo de intervenção exercida. “A família é um dos fatores de maior influência no processo de desenvolvimento de carreira e no processo vocacional. E pode tanto ajudar quanto dificultar nesse processo”, diz.
“Os pais têm história e características próprias que influenciam o conceito que o jovem tem de si mesmo, assim como a compreensão que ele tem de suas habilidades e aptidões”, afirma. “Quando o jovem diz que quer fazer direito, medicina ou engenharia, em geral, os pais respondem: apoiado. Isso porque, para eles, quanto menos riscos o filho correr, melhor”, observa Tadeu Patané, consultor da Teenager Assessoria Profissional. “Mas, se, de repente, ele chega e fala de uma profissão que, para eles, não é tão relevante, dizem de cara: não! Só que não dá para ter  postura de autoritarismo.”

Interesses em desacordo

Naturalmente, os pais têm sonhos e acabam projetando isso nos filhos. “Isso pode gerar conflitos decisórios, pois o jovem pode não distinguir os desejos dele das expectativas da família”, ressalta Luiz Ricardo, autor do livro O estresse da escolha profissional em estudantes. “É preciso ter cuidado para que a escolha não seja tomada para provar a lealdade aos pais porque, às vezes, a carreira sugerida pode ser a que os pais não conseguiram seguir no passado”, pontua. Para Tadeu Patané, a postura correta dos genitores é ajudar a prole a escolher a trajetória a seguir, mas em forma de orientação, não tirando o poder de decisão do jovem. “É preciso dar autonomia para o aluno optar. Se eles acreditam que aquela profissão não é adequada, antes de falar, é bom perguntar como o filho chegou àquela conclusão e ajudar na pesquisa”, sugere.

Teenager/ Divulgação
Tadeu Patané, consultor de uma assessoria de escolha de carreira

Assim, de acordo com ele, o risco de fazer uma escolha errada, o que pode gerar frustrações, pode ser diminuído. Uma das grandes preocupações dos pais é a questão financeira. “Mas que profissão dá dinheiro? Nenhuma. Porque quem ganha dinheiro é o profissional, independente da área. O retorno virá a partir de um bom trabalho”, diz Tadeu. É exatamente dessa autonomia que Tadeu diz que o mercado está atrás. “A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) até colocou a construção do projeto de vida como competência”, afirma. “E se eu errar? Você estará escolhendo o que é bom naquele momento, mas ainda existirão muitas escolhas profissionais a serem feitas”, garante. Além disso, ele explica que, geralmente, os pais não apoiam os filhos nas decisões por falta de conhecimento, por isso a importância da pesquisa.
“Tem curso universitário que a gente nem conhece. E não é porque você é um bom advogado que o seu filho também será”, destaca. “É importante que esse jovem se sinta acolhido e compreendido pelos pais”, completa Luiz Ricardo. Nessa história, o mais importante, segundo Tadeu, é fazer uma escolha consciente. “O pai não pode escolher pelo filho. E não existe esse desespero de precisar saber o que quer assim que termina o ensino médio. Para o mercado, pouco importa se você se formou com 22, 23 ou 24 anos. Escolher estando mais consciente é muito melhor”, aconselha. Além disso, Ana Claudia ressalta que só a opinião dos pais não é suficiente para saber qual é o melhor caminho. “Quando eu olho para os meus pais, estou olhando para o que já foi. E, ao pensar no futuro do trabalho, não sei se referências do passado sustentarão isso. Temos que ser protagonistas da nossa história e acredito que o networking serve para ir compondo as variáveis que melhoram a tomada de decisão”, afirma.


Quais são os sonhos dos seus pais?

Os pais podem até projetar seus sonhos nos filhos, mas poucos filhos sabem quais são os sonhos dos pais. Pelo menos é o que mostra uma pesquisa feita pela Unicesumar. Segundo o levantamento, 72% dos jovens universitários brasileiros desconhecem quais são os sonhos de vida dos seus pais. Entre os que revelaram conhecer os objetivos dos pais, as principais vontades apontadas para a maturidade foram a casa própria (comprar, reformar ou trocar por uma maior), a estabilidade financeira (vida tranquila, sem dívidas e com mais conforto) e a qualidade de vida (aproveitar a velhice e ser feliz).

Linhagem de advogados

Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press
No clã Ribeiro, a profissão passou de pai para filho: Eduardo, Marcelo e João Gabriel

 A expressão filho de peixe, peixinho é faz todo sentido para a família de Marcelo Ribeiro, 55 anos. O clã está na terceira geração de advogados. Os avós eram da área jurídica, o pai é advogado e, agora, os filhos seguem o mesmo caminho. A trajetória, de acordo com Marcelo, foi percorrida naturalmente, sem pressão. “Desde que nasci, vivo em torno desse ramo. Minha mãe era juíza e meu pai, hoje com 81 anos, continua advogando porque gosta”, conta. “Tem uma tendência muito forte na família”, destaca o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O pai dele, Eduardo Ribeiro, ressalta como a família segue uma tradição. “Eu nunca disse para estudarem direito, meus pais também não me disseram para eu ser advogado, foi algo natural”, lembra. Hoje, os dois filhos de Marcelo estão entrando no ramo também. O mais novo faz faculdade de direito, o mais velho é advogado e trabalha com o pai no escritório Ribeiro e Ribeiro Advogados. “Desde muito pequeno, eu queria ser advogado. Muito por influência do meu pai e da minha mãe”, lembra João Gabriel Ribeiro, 23 anos, que se formou pela Universidade de Brasília (UnB). “A influência foi mais indireta, eles nunca disseram para eu fazer direito, mas eu sempre os admirei”, afirma. Marcelo também destaca que sempre deixou os filhos livres para escolher o que achassem melhor.
“A influência vem da observação. Eu sou muito ativo. Quando fui ministro, eles eram muito novos. Então, passaram a infância e a adolescência me vendo atuar”, diz. Para ele, sem dúvidas, o fato de a família estar na profissão ajuda muito. O filho João Gabriel concorda. “Tem muitas vantagens, eu posso aprender diariamente com eles, o que me ajudou bastante. Tem a desvantagem da exigência. Há uma expectativa alta. Mostrar o fruto do meu próprio trabalho exige muito mais esforço”, afirma.

Conflito de ambições

Aline Rocha/Esp.CB/D.A Press
Shalimar não seguiu o plano do pai, mas acredita que ele estaria orgulhoso dela se estivesse vivo

 A professora de matemática Shalimar Vilar, 46 anos, cresceu em uma família com boas condições financeiras, e o pai queria que ela mantivesse o mesmo padrão. “Meu pai, mesmo sem ter formação, conseguiu construir uma boa estrutura. Ele fez de tudo e não queria que os filhos passassem pelo que ele passou”, lembra. Por isso, quando ela disse que queria ser professora, ele não ficou muito animado. “Meu pai disse para eu fazer direito porque, talvez, sendo professora, eu não conseguiria me sustentar.” Ela resolveu cursar biologia com o plano de fazer um concurso depois. Tudo mudou quando começaram as matérias de cálculo.
“Foi aí que eu me encontrei. Comecei a dar aulas particulares e percebi que queria ser professora mesmo”, diz. Ela resolveu então cursar matemática. “Falei com o meu pai e ele ficou uma fera: como assim você vai jogar tudo fora?”, recorda. O pai de Shalimar faleceu, mas ela garante que, se ele estivesse vivo, estaria satisfeito. “Tenho certeza de que, se ele soubesse o quão feliz eu sou, ele sentiria orgulho. Se eu tivesse seguido outra profissão, não seria tão feliz”, ressalta a professora do ensino fundamental 2 no Centro Educacional Sigma. “O financeiro é importante, mas o mais importante é você estar bem naquele trabalho”, afirma.


Fui por outro caminho

Encobras/Divulgação
Christian se viu em meio a muitas sugestões de carreira por parte dos familiares, mas decidiu por si próprio

  Quando foi escolher a profissão, Christian Soliva, 40 anos, se viu em um dilema: a mãe queria que ele fosse dentista; o pai e os avós o desejavam como advogado, mas ele mesmo não queria nada disso. “Era o primeiro neto e o primeiro filho; então, tinha expectativas”, lembra. Em vez disso, ele escolheu algo bem diferente: turismo. “Eu vi que era isso que eu queria fazer. Ninguém sabia o que era, então meus pais não colocaram muita fé. Mas, hoje, sou realizado”, conta ele, que é coordenador comercial na agência Bancorbrás. Ele lembra que não foi uma decisão fácil, mas pesquisou bastante antes de seguir a área. “Eu senti medo; afinal, estava indo contra a vontade dos meus pais. E se eu escolhesse errado? Mas nunca me arrependi”, garante. “Temos que fazer o que temos no coração e não o que é forçado. A gente passa mais tempo no escritório do que com a família e com os amigos. Nesse sentido, eu não perco, sou realizado”, conclui o turismólogo.

Quais suas influências? 

Foi isso que a pesquisa feita pelo LinkedIn em parceria com a Censuswide buscou saber. Foram entrevistados 2.001 trabalhadores brasileiros, na faixa etária de 16 a 55 anos ou mais, de todas as regiões do país. Confira as referências que mais impactaram a escolha da carreira:Pais – 26%Gerente/supervisor de alguma experiência profissional anterior – 11,6%Professor universitário – 11,4%Professor escolar – 10%Amigos – 9%Cônjuge – 8%Figura pública – 3,8%Mentor – 3,5%Primeiro entrevistador – 2%Personagem de filme ou TV – 1%

Informe-se!

O LinkedIn oferece duas opções para ajudar o processo de escolha da carreira. São elas:* A Central de Aconselhamento Profissional, que tem como objetivo promover uma troca de conhecimento entre estudantes, recém-formados e pessoas em transição de carreira com mentores que possam aconselhá-los. O serviço é gratuito.
O LinkedIn Learning. A plataforma oferece mais de 15 mil cursos e é paga, mas, todo mês algumas capacitações são liberadas para teste gratuito pela plataforma. O Learning está disponível nas plataformas web, iOS, Android para usuários Premium. A mensalidade começa em R$ 49,90. Saiba mais: linkedin.com

Palavra de especialista

Questão pessoalA escolha profissional deve ser feita pelo estudante, pois é ele quem estudará determinado assunto ao longo de anos e passará grande parte da vida exercendo aquela profissão. Muitas vezes, os filhos não demonstram, mas valorizam bastante a opinião dos pais e se sentem frustrados quando percebem que suas escolhas não estão de acordo com as expectativas deles. Gera-se um alto nível de ansiedade nos filhos quando, ao fazer sua escolha profissional, percebem que os pais não a aprovam. Os pais querem proteger os filhos de frustrações. No entanto, se esquecem de que eles têm vontade própria, que já não são tão imaturos e saberão lidar com dificuldades.Raíssa Laurentino de Oliveira, psicóloga, psicoterapeuta, com especialização em psicologia clínica, coach e analista comportamental

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